Precisamos discutir qualidade de ensino

Por: Anabela N. Marcos
Estão abertas as inscrições para acesso ao ensino superior. A mídia tem dado atenção à este assunto, e vem reportando os acontecimentos ligados à corrida dos estudantes por uma vaga nas Instituições públicas e particulares. Discutimos o acesso, as enchentes nos processos de inscrição, a oferta de vagas, critica-se os preços praticados, o lado burocrático. Vangloriamos o visível aumento da oferta, fruto de um projecto de formação de quadros que é pauta do Ministério, que vem garantindo mais vagas e oportunidades para aqueles que buscam um lugar ao sol que teoricamente o canudo proporciona. Números. Volume. Quantidades. É o que me chamou atenção do que li e ouvi nos últimos dias quando a pauta era o acesso ao ensino superior.
Sem querer desmerecer todo a lado positivo destes dados, ao estar envolvida com Recursos Humanos e busca de talentos, não posso deixar de me preocupar com a qualidade dos profissionais com canudo na mão, que deveriam estar prontos para ocupar as vagas de emprego. Sim. Precisamos discutir qualidade. Trazer o debate para além dos números. As lacunas vêm não só do conhecimento técnico, que em muitos casos até estamos bem servidos, mas principalmente da formação de profissionais no real sentido da palavra, que, de acordo com o dicionário são aqueles que executam as suas obrigações ou funções laborais e forma diligente, escrupulosa e eficiente. A pergunta então é: estamos realmente a formar nesta vertente?
Quando nos propomos a pensar e projectar a formação é preciso se ter em conta que estamos na verdade a reflectir sobre que tipo de profissional e cidadão queremos formar. Isto porque os objectivos da educação são sempre sociais. Ousamos então responder, inicialmente, que desejamos profissionais eficientes, engajados e comprometidos com os interesses do país e com a transformação da sociedade. É por aqui que passa toda a mudança que almejamos sobre os problemas que temos reclamado e debatido de forma tão crítica, e organizar o ensino para que este objectivo seja atingido deveria ser o nosso maior desafio.
Arriscamos aqui apontar alguns aspectos, sem querer esgotá-los, que devem ser motivo de reflexão de todos envolvidos neste processo. Começamos pela necessidade de priorizar e direccionar a formação para a produção de conhecimento, e não apenas na reprodução de conceitos que vêm sendo usados, no geral copiados de outras realidades diferentes da nossa e absorvidos mecanicamente sem processos de análise.
Os cursos devem também superar a dissociação existente entre teoria e prática. A academia precisa se encontrar com a sociedade, derrubar os muros das instituições de educação, para promover um encontro com o que há de real a ser discutido a nossa volta, e assim gerar soluções conjuntas adaptadas ao que precisamos. Além disso devem assumir a relação que há entre o ensino e o mundo corporativo, para criação de novas práticas comprometidas com desenvolvimento de profissionais que atendam a demanda do nosso mercado, não apenas no conhecimento de técnias e conceitos, mas um preparo de habilidades e atitudes comportamentais que possibilita um processo de produção mais abrangente.
Convido a todos envolvidos para uma aposta nesta direcção. Sei que não é fácil, mas, pela sociedade que almejamos, as dificuldades não devem nos levar a desistir.



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